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O PROCESSO DE CAMILO

Carlos Querido

 

Acusado do crime de adultério, Camilo Castelo Branco esteve preso na cadeia da Relação do Porto entre 1 de outubro de 1860 e 16 de outubro de 1861: durante 383 noites, como declara nas Memórias do Cárcere. Numa outra cela encontrava-se Ana Plácido.

 

O processo questiona a justeza da criminalização do amor, mesmo quando leva à perdição dos amantes, mas a sociedade da época manifesta apoio maioritário ao marido traído. Nas cartas desesperadas que escreve na prisão o escritor exprime poucas dúvidas sobre a condenação final.

Para espanto do povo da Invicta, o rei D. Pedro V visita Camilo na prisão, por duas vezes. Jovem, romântico e gentil, este rei amado pelo seu povo morre cedo, como todos os que os deuses amam. Talvez a sua presença tenha sido decisiva para a forma como passou a ser encarado o processo de escritor.

 

As condições de vida na cadeia, que antes era más, mudam entretanto. Nas Memórias do Cárcere, Camilo conta um curioso episódio de “poesia sanguinária” ocorrido com um seu grande amigo Vieira de Castro, que pede ao infortúnio que mate o amigo, para que este conquiste a imortalidade: «Que belo espetáculo para a posteridade se tu morresses agora! […] Que livro no futuro! Que romance magnífico! Que sepultura tão sagrada a tua! […] A prisão é

uma desgraça vulgar, a morte seria um relevo, uma imortalidade […]». Diz-nos Camilo: «Ouvi maravilhado o meu amigo, e perguntei-lhe se queria almoçar. Depois vesti-me e saímos a jantar na sua hospedaria».

 

Na fase final da reclusão, para grande escândalo da cidade conservadora, Camilo, o adúltero, saía para jantar e para ir às compras.

Realizado o julgamento, o escritor surpreende-se com a absolvição. Não tinha preparado a mudança de residência, como conta Aquilino Ribeiro. Além disso, e como era habitual, estava falho de recursos.

Em carta ao visconde de Ouguela, refere: «Já sabes que eu, quando estive preso, por fim não me dava mal com o conforto do quarto, e fui intimado para sair pelo procurador régio».


Edição #72
Colecção Fósforo #06
Lisboa, Abril 2018

 

Design e logótipo convidado José Teófilo Duarte
Revisão Noémia Machado
Foto Camilo Castelo Branco [Autor não mencionado], Camilo Castelo Branco, PT/CPF/CNF-CALVB/000480, Imagem cedida pelo Centro Português de Fotografia.
Foto Processo Carlos Querido

 

Composto em caracteres Rongel sobre Coral Book Ivory 100 g
Capa em cartolina chromocard 260 g
40 páginas
10,5 x 21 cm

ISBN 978-989-8688-68-2

 

PVP 8,10 € (desconto de 10% sobre o PVP 9 €)

 

Carlos Querido(Salir de Matos, Caldas, 1956) divide-se entre a vida profissional dedicada à justiça na qualidade de juiz desembargador, tendo passado por numerosas comarcas, de Peniche a Coimbra, de Torres Vedras ao Porto, e a paixão pela História, que deu já origem a dois pequenos volumes: Salir d'Outrora (PH – Estudos e Documentos, 2007), sobre o Mosteiro de Alcobaça, e Praça da Fruta (Corrida de Letras, 2009), sobre aquela praça nas Caldas da Rainha. Publicou recentemente Insanus (abysmo), depois de ter dado à estampa, Príncipe Perfeito – Rei Pelicano, Coruja e Falcão, e A Redenção das Águas (ambos na Arranha-céus)

 

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